Tudo Sobre a SII
A Síndrome do Intestino Irritável, é um distúrbio do eixo intestino-cérebro, que afeta 10 a 25% da população mundial. Sabemos que é mais frequente em mulheres mas pode afetar qualquer pessoa.
A nutricionista Margarida Beja explica-lhe o essencial sobre SII
Um tema sério
Esta síndrome caracteriza-se por dor, desconforto abdominal e alterações dos hábitos intestinais, isto é, a frequência com que vai à casa de banho. Além da frustração que surge frequentemente pela dificuldade em gerir os sintomas e a sua imprevisibilidade, estes poderão ainda afetar significativamente o seu estado mental. Estamos a falar de um distúrbio do eixo intestino-cérebro e, portanto, estes dois órgãos e as suas funções estão relacionados. É um tema importante e, embora se pense que a prevalência varie entre 10 a 25% há a forte possibilidade dos números serem superiores mas não diagnosticados, dando conta por isso do quão comum esta síndrome se trata.
O que diz a Ciência
Embora as causas da SII não sejam muito claras, a ciência e os investigadores na área apontam para um conjunto de potenciais fatores: desequilíbrios na microbiota, inflamação de baixo grau, hipersensibilidade visceral (não só mas caracteriza-se como um maior sensibilidade à dor) , fatores genéticos, alterações no estado emocional ou outros fatores que tenham potencial impacto
Não tem a certeza se tem síndrome do Intestino Irritável ou outro problema?
Nós ajudamos a identificar alguns sinais. Mas lembre-se: o diagnóstico final só pode ser feito por um profissional de saúde. Consulte o seu médico de família ou gastroenterologista.
- Sintomas
- Causas
- Diagnóstico
- – Vamos falar sobre isso?
- – Os Critérios de Roma IV
- – Escala de Bristol
- – Na Consulta
- Tratamento
- Probióticos
Sintomas
A sintomatologia pode variar bastante de pessoa para pessoa, havendo 4 classificações essenciais, segundo os Critérios de Roma IV.
Os sintomas incluem:
Dor abdominal e alterações no trânsito intestinal (diarreia, obstipação ou até ambos). Algumas pessoas experienciam ainda distensão abdominal, flatulência ainda que estes não confiram critério.
Se sofre destes sintomas com frequência e se estes têm um impacto significativo na sua qualidade de vida, poderá ser importante ter acompanhamento para perceber se se trata de síndrome do intestino irritável ou outra do foro gastrointestinal. Ainda tem dúvidas ou precisa de aconselhamento? Procure aconselhamento com o seu médico.
Há uma causa-efeito?
As causas da SII não estão totalmente estabelecidas. No entanto, cientistas demonstraram que o risco de desenvolver SII é superior após uma gastroenterite com origem bacteriana. Outra suposição é que exista um desequilíbrio da microbiota intestinal e alterações na permeabilidade da barreira intestinal. Partindo do pressuposto de que a microbiota intestinal tem um papel importante nesta síndrome, a toma de probióticos pode ser considerada.
Diagnóstico
A SII apresenta uma enorme diversidade de sintomas e nem todas as pessoas que têm SII apresentam os mesmos, com a mesma frequência ou severidade. Para além disso, os sintomas podem variar ao longo da vida, o que significa que podem inclusive melhorar ou reaparecer.
A verdade é que os sintomas podem ser muito pouco específicos, isto é, aparecem também noutras patologias do intestino. Por este motivo, é importante que sejam analisados alguns fatores de risco e que seja feita a exclusão de outras patologias, nomeadamente a doença celíaca e a doença inflamatória do intestino.
No final, o diagnóstico é feito através da exclusão de outras doenças e o enquadramento dos sintomas nos critérios de diagnóstico.
Vamos falar sobre isso?
Falar sobre os seus hábitos intestinais pode ser difícil até porque é assunto íntimo para muitos, no entanto, ter abertura para o fazer é importante não só para perceber se precisa de apoio mas no sentido de se poder conectar com pessoas que passem pelo mesmo e que possam ser uma boa fonte de apoio.
Na nossa página Comunidade poderá partilhar as suas experiências e ver as de outras pessoas com SII.
Os Critérios de Roma IV
A síndrome do intestino irritável não pode ser detetada por meio de exames médicos (exames de sangue, imagiologia médica, etc.). É por isso que a Rome Foundation definiu critérios concretos de forma a identificar e diagnosticar esta síndrome.
Os critérios de Roma IV que permitem estabelecer o diagnóstico da síndrome do intestino irritável são os seguintes:
- dor abdominal recorrente
- que ocorra em média pelo menos uma vez por semana nos últimos três meses
Associada a dois ou mais dos seguintes:
- alívio da dor com defecação
- alteração na frequência das fezes
- alteração da forma (aparência) das fezes.
Existem outras condições clínicas do eixo intestino-cérebro e que se podem confundir com a síndrome do intestino irritável, nomeadamente a obstipação funcional ou a diarreia funcional. A gestão é semelhante ainda que a dor abdominal não esteja sempre presente.
Escala de Bristol – Vamos falar de cocó?
Há quatro principais sub-tipos de SII, e o seu deve ser determinado quando não estiver a tomar qualquer medicação para tratamento dos sintomas intestinais.
- SII-O (IBS-C) – com predominância de obstipação
- SII-D (IBS-D) – com predominância de diarreia
- SII-M (IBS-M) – com hábitos intestinais mistos
- SII-U (IBS-U) – pacientes que têm sintomas da SII, mas cujos hábitos intestinais não podem ser categorizados com precisão em 1 dos 3 grupos acima.
- Há também quem tenha SII pós-infeciosa (os sintomas surgem após uma infeção do trato gastrointestinal).
Para ajudar no diagnóstico e na categorização dos sintomas, é usada a Escala de Bristol, destinada a classificar a forma das fezes humanas em sete categorias. Isto é particularmente importante não só porque pode tornar-se desconfortável descrever os sintomas e por isso não os descrever de forma tão fidedigna, mas porque o conceito “diarreia”, por exemplo, pode ser subjetivo e aquilo que muitos consideram como tal, na verdade, não terá esse nome quando avaliado clinicamente.

Tipo 1: Fezes duras, com protuberâncias, como nozes e difíceis de eliminar. (associadas a obstipação)
Tipo 2: Em forma de salsicha mas granulosas e irregulares. (associadas a obstipação)
Tipo 3: Fezes em forma de salsicha com fissuras na sua superfície (normal).
Tipo 4: Fezes em forma de salsicha, macias e mais lisas do que o tipo 3 (normal).
Tipo 5: Fezes fragmentadas moles e lisas, que não envolvem esforço e tendem a quebrar. (trânsito intestinal acelerado)
Tipo 6: Fezes pastosas ou semilíquidas com alguns pedaços moles (diarreia)
Tipo 7: Fezes líquidas, sem pedaços sólidos (diarreia)
Prepare-se para analisar e falar de cocó com o seu médico – ajudará no diagnóstico e é importante para ter consciência da sua saúde intestinal. Neste caso, ter um diário de sintomas o mais detalhado possível, pode ser muito importante.
Importa ainda dizer que a maioria das pessoas acaba por não conseguir explicar em consulta aquilo que realmente sente, seja porque o tempo é limitado, desconforto legítimo em falar do assunto ou até por esquecimento. Nesse sentido, ter escrito e compreender a frequência dos seus sintomas é muito importante.
Estou com vergonha… O que vai acontecer na consulta com o médico?
Antes de mais, parte-se de princípio que procura um médico porque tem sintomas ou aspetos que o preocupam – ainda que existam alguns sintomas que apontam para a presença de síndrome do intestino irritável, cabe ao profissional analisar os sintomas e ponderar se são necessários exames. A SII é conhecida por uma enorme prevalência de autodiagnósticos, o que além de impedir que estes sejam fidedignos e que a gestão seja adequada, pode não identificar um problema gastrointestinal que precisa de acompanhamento diferenciado.
Sinceridade acima de tudo
Não só se trata de um problema bastante comum, como os médicos são profissionais que além de verem várias condições clínicas e sintomas diariamente, estão prontos para o ajudar sem julgamento. Uma vez que a SII não se revela nos exames de rotina ou mais comuns – como análises – se tem questões intestinais é importante falar sobre elas. Portanto, quando o médico lhe mostrar a escala de Bristol, é normal e expectável. Explique o que sente o melhor que conseguir e não tenha medo de fazer perguntas se tiver dúvidas.
Diagnóstico certo
É muito importante descartar qualquer outra doença que possa estar a causar problemas antes de fazer o diagnóstico final. Por exemplo, o seu médico pode fazer testes para despistar doença celíaca antes de sugerir um tratamento. É normal que lhe sejam pedidas várias análises ao sangue e até às fezes, e que lhe sejam colocadas questões para auferir o seu histórico pessoal e familiar e medicação. A colonoscopia é menos comum, mas pode ser pedida para despiste de outras causas.
Diário alimentar
O médico fará o diagnóstico com base nos seus sintomas, historial médico e familiar.
Para ajudá-lo a entender melhor o seu problema, é muito útil levar um diário sobre a sua alimentação e os seus sintomas e seu estado de espírito. É importante que diga ao seu médico se tiver outros sintomas para além de algum dos mencionados, uma vez que pode ser sinal de um outro problema. Principal atenção se tiver dor contínua, localizada sintomas noturnos (suores ou acordar para ir à casa de banho), febre, perda de peso não intencional, sangue nas fezes. Tudo o que sentir e observar fora do normal é digno de nota! Aponte tudo e leve para a consulta.
Por vezes o acompanhamento nutricional é necessário e este diário pode também ser útil caso depois vá a uma consulta de nutrição.
Precisa de ajuda? Descarregue o nosso Diário Intestinal para começar já hoje.
Ok. Tenho o meu diagnóstico. E agora?
O tratamento da SII passa por gerir os sintomas. Não existe uma “cura”, mas as crises ou fases de maior sintomatologia podem diminuir ao longo do tempo, por vezes de forma espontânea ou, noutras, com a ajuda de um plano terapêutico adequado. O seu médico pode ajudar a optar por uma variedade de soluções, como seguir recomendações de um nutricionista, tomar probióticos ou medicação útil nos seus sintomas, atividade física ou abordagens que ajudem a gerir a saúde e bem estar emocional.
Existe a probabilidade de que alguns sintomas persistam e estabilizem e há até quem consiga ter uma melhoria significativa e uma vida perfeitamente normal.
Irá encontrar outras pessoas que sentem e já passaram pelo mesmo, especialmente na fase de aprendizagem (espreite a página Comunidade).
Gerir a SII
O seu médico poderá recomendar uma série de opções terapêuticas e alterações do estilo de vida que poderão ajudar no seu caso específico. Isto significa que o que resulta para outras pessoas com SII, pode não resultar necessariamente consigo.
Alguns dos tratamentos:
Toma antiespasmódicos, laxantes, fibras ou antidiarreicos
Alteração da dieta alimentar
Técnicas de relaxamento para redução da ansiedade e gestão de stress
Psicoterapia
Toma de probióticos
Fisioterapia pélvica
Pequenas mudanças
Fazer as refeições em horários regulares e evitar períodos longos sem comer, ingestão de líquidos e atividade física, podem ter benefícios gerais, mas não está totalmente comprovada a sua influência direta na melhoria dos sintomas da SII.
No entanto, considerando que o intestino e o cérebro têm uma ligação direta e bilateral, podemos considerar que o exercício, a meditação ou outras estratégias que apoiem e ajudem o seu bem estar emocional podem ajudar na redução dos sintomas da SII. Aqui importa também perceber que alguns aspetos mais inconscientes podem também contribuir para alguns sintomas, mesmo que de uma forma geral possa sentir que não está a passar por um período de maior ansiedade.
Quanto à alimentação, é verdade que as modificações na dieta podem resultar numa melhoria significativa nos seus sintomas, no entanto, sem o acompanhamento de nutricionista, pode cair no risco de seguir dietas nutricionalmente inadequadas.
Probióticos
A palavra probiótico tem origem no Latim e no Grego, e significa “Pró-vida”. São “organismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, beneficiam a saúde do hospedeiro”. A noção de probiótico desenvolveu-se com Ilya Ilitch Metchnikov, vencedor de um prémio Nobel, que postulou a longevidade de certas populações na Bulgária estaria ligada à absorção de produtos fermentados que teria o efeito de manter um equilíbrio adequado entre a flora digestiva patogénica e benéfica.
O papel dos probióticos na SII
A causa da SII é ainda desconhecida, mas hoje em dia, e com o avanço da ciência, é possível perceber o papel da microbiota e um eventual desequilíbrio da mesma e a sintomatologia e a primeira apresentação de SII. Assim, com base nesta premissa, assume-se que o benefício na toma de probióticos, podem desempenhar um papel importante no equilíbrio da microbiota e consequentemente justificar o benefício que a sua toma representa na gestão dos sintomas.
Alimentos fermentados – como o kimchi, kombucha ou até kefir – são benéficos e promovem uma diversidade microbiana no intestino, mas não terão o mesmo efeito que a toma de suplementos já que o processamento alimentar não garante uma quantidade e tipo específico de micro-organismo, algo que acaba por fugir àquilo que é a definição de probiótico.
Poderá encontrar probióticos em alguns alimentos – nomeadamente iogurtes – ou em medicamentos e suplementos alimentares. Porém como existem milhares de microrganismos diferentes, nem todos os probióticos terão um efeito benéfico para a SII.
O Bifidobacterium longum 35624® apresenta evidência relativamente à sua eficácia na SII. Alguns estudos científicos demonstraram que esta estirpe é eficaz na redução significativa dos sintomas da SII: dor abdominal/desconforto, flatulência e distensão abdominal e problemas do trânsito intestinal.
Precisa de conselhos adicionais? Converse com o seu médico ou nutricionista sobre as suas opções.
Feedbacks
Joana Oliveira, autora do blog My Gut Feeling
“A minha SII surgiu há 7 anos, após uma gastroenterite aguda. Foi um ano complicado mas pude recuperar e controlar os sintomas com o apoio de uma nutricionista especializada na dieta low FODMAP. Depois veio a gravidez e, tirando algumas cólicas no primeiro mês, correu tudo bastante bem. Para mim, estes 9 meses foram um momento de calma a nível de SII. Viver com esta doença nem sempre é fácil mas com o acompanhamento certo, a alimentação adaptada e a ajuda pontual de probióticos, conseguimos gerir bem as crises e aumentar a nossa qualidade de vida.”
Inês Carvalho, do @lowfodmapt
“Aos 20 anos, somei à Doença de Crohn a SII. Como a sintomatologia é semelhante, o diagnóstico foi mais complexo. Adotei a dieta low FODMAP, mas os sintomas não passaram por completo – grande parte das minhas crises estavam associadas à ansiedade e ao stress. Procurei ajuda psicológica e comecei a melhorar. Hoje sei que a SII requer uma abordagem multidisciplinar: dormir 7h-8h por dia, fazer a dieta, com uma alimentação saudável e variada dentro do possível, controlar o stress e a ansiedade e praticar exercício físico.”
Descubra mais sobre esta Síndrome com a nutricionista Margarida Beja
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