Mas eu não tenho depressão e não preciso de antidepressivos!
Em primeiro lugar, e retirando a SII da equação, é um facto que a doença mental e a toma de fármacos para o seu tratamento continuam a ser alvo de enorme estigma. A resistência ao tratamento surge, muitas vezes, de ideias preconcebidas em relação à medicação e, se isto acontece em quadros de doença psiquiátrica, também se estende quando estes fármacos são utilizados para tratar os sintomas da SII.
É ainda comum que este tema não seja devidamente discutido em consulta quando a medicação é sugerida, sendo que muitas pessoas assumem automaticamente que o médico está a afirmar que os sintomas têm origem emocional — e podem ter. No entanto, a ação destes fármacos vai muito além disso.
Além disso, pode surgir um sentimento de desvalorização dos sintomas, quase como se fossem uma invenção. Mas não são — os seus sintomas são reais.
Porque são sugeridos estes fármacos?
Neste contexto, o termo “antidepressivo” tem vindo a ser cada vez menos utilizado, não necessariamente pelo estigma, mas porque essa não é a sua principal função neste caso. O termo mais adequado é neuromoduladores. São fármacos utilizados em doses específicas, que atuam no intestino e podem modular os sintomas intestinais. Como? Porque, sendo a SII um distúrbio do eixo intestino-cérebro, estes fármacos desempenham um papel importante na modulação da comunicação entre estes dois órgãos, que, nestes casos, pode estar alterada e justificar a sintomatologia.
O intestino tem quase um “sistema nervoso próprio” — o sistema nervoso entérico — muitas vezes apelidado de segundo cérebro. Contém muitos neurónios (as células do sistema nervoso) e necessita, de forma simplificada, das mesmas substâncias — neurotransmissores — para funcionar. Neste sentido, estes fármacos podem ter um impacto significativo.
Hipersensibilidade visceral
Trata-se de um fenómeno presente nos distúrbios do eixo intestino-cérebro que influencia a forma como o cérebro interpreta a dor. Significa que movimentos peristálticos — normais e necessários para o funcionamento do intestino — e o próprio processo digestivo, apesar de fisiológicos, podem ser sentidos como dor, que surge amplificada.
Quebrando o estigma
- Os seus sintomas e a sua dor são reais. A toma destes fármacos atua nos mecanismos que estão na sua base e não significa que sejam fruto da sua imaginação.
• Não são necessariamente causadores de dependência; muitas vezes são utilizados em doses baixas. Ainda assim, deve sempre discutir as suas preocupações com o seu médico.
• Estes medicamentos têm um efeito cumulativo: não atuam de forma imediata, pelo que os benefícios podem demorar algum tempo a surgir.
Por último…
Seja um agente ativo na sua terapêutica: faça perguntas, explore alternativas com o seu médico e não interrompa a medicação sem falar com o profissional que o acompanha.
Referências
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