Que relação têm as suas emoções e o seu intestino?
Certamente já ouviu falar do eixo intestino-cérebro. No entanto, para compreender verdadeiramente a relação entre as suas emoções e o funcionamento intestinal, é essencial introduzir outro conceito-chave: o eixo HPA (hipotálamo–hipófise–adrenal).
O eixo HPA é um dos principais sistemas responsáveis por regular a resposta do organismo ao stress. Funciona como uma cadeia de comunicação entre três estruturas: o hipotálamo (no cérebro), a hipófise (uma glândula também localizada no cérebro) e as glândulas suprarrenais (situadas acima dos rins). Sempre que o corpo interpreta uma situação como ameaçadora — seja um perigo físico real ou um stress emocional — este sistema é ativado.
Quando isso acontece, o hipotálamo envia um sinal à hipófise, que por sua vez estimula as glândulas suprarrenais a libertarem hormonas, sendo o cortisol a principal. O cortisol prepara o organismo para reagir: aumenta o estado de alerta, mobiliza energia e ajusta várias funções corporais para lidar com o “desafio”.
Este mecanismo é fundamental para a sobrevivência. O problema surge quando o stress deixa de ser pontual e passa a ser constante. Nestes casos, o eixo HPA permanece ativado durante períodos prolongados, o que pode ter consequências em vários sistemas do corpo — incluindo o intestino.
Não é por acaso que, em muitas pessoas, os primeiros sintomas da Síndrome do Intestino Irritável (SII) surgem ou se agravam após períodos particularmente difíceis ou emocionalmente exigentes. Situações como um divórcio, a perda de um ente querido, problemas profissionais ou fases de elevada pressão emocional são frequentemente relatadas como gatilhos. Embora nem todos os casos sigam este padrão, a associação entre stress e sintomas intestinais não é coincidência — tem uma base fisiológica bem estabelecida.
Mas como é que o stress “chega” ao intestino?
A resposta está na ligação constante entre o cérebro e o sistema digestivo. O intestino possui o seu próprio sistema nervoso — o sistema nervoso entérico — e comunica continuamente com o cérebro através de vias nervosas, hormonais e imunitárias. Esta comunicação bidirecional é o que chamamos de eixo intestino-cérebro.
O eixo HPA é uma das principais vias através das quais o cérebro influencia o intestino. Quando este sistema está cronicamente ativado, como acontece em situações de stress prolongado, surgem alterações significativas no funcionamento intestinal.
Uma das primeiras consequências é a desregulação da motilidade intestinal. O trânsito intestinal pode tornar-se irregular: em algumas pessoas acelera, levando a episódios de diarreia; noutras abranda, resultando em obstipação. Esta variabilidade é uma das características mais comuns da SII.
Além disso, o stress aumenta a sensibilidade intestinal. Isto significa que estímulos que normalmente seriam impercetíveis — como a presença de gás ou o movimento natural do intestino — passam a ser sentidos como dor ou desconforto. Este fenómeno é conhecido como hipersensibilidade visceral e é um dos mecanismos centrais na SII.
Outro efeito importante da ativação prolongada do eixo HPA é o impacto na microbiota intestinal. O stress pode alterar o equilíbrio das bactérias no intestino, reduzindo a diversidade e favorecendo um estado de disbiose. Esta alteração não afeta apenas a digestão, mas também a produção de substâncias com impacto direto no cérebro, como neurotransmissores.
Importa sublinhar que esta relação não é unidirecional. Tal como o cérebro influencia o intestino, o intestino também envia sinais de volta para o cérebro. Esta comunicação ocorre através do nervo vago, de mediadores inflamatórios e de substâncias produzidas pela microbiota.
Isto significa que um intestino em desequilíbrio pode contribuir para alterações no estado emocional. Pessoas com SII relatam frequentemente níveis mais elevados de ansiedade, preocupação com os sintomas e até impacto na qualidade de vida social. Este ciclo pode tornar-se difícil de quebrar: o stress agrava os sintomas intestinais, e os sintomas intestinais aumentam o stress.
No contexto da SII, esta interação é particularmente relevante. A evidência científica sugere que pessoas com SII apresentam uma maior reatividade do eixo HPA. Ou seja, o sistema de resposta ao stress é mais sensível e mais facilmente ativado. Ao mesmo tempo, a comunicação entre o intestino e o cérebro tende a ser mais intensa, o que amplifica a perceção dos sintomas.
É neste contexto que surge o conceito de hipersensibilidade visceral. Pequenos estímulos — como distensão intestinal normal após uma refeição — podem ser interpretados pelo cérebro como dor significativa. Isto não significa que “está tudo na cabeça”, mas sim que existe uma amplificação real dos sinais entre o intestino e o cérebro.
Perceber este ciclo é fundamental, porque ajuda a explicar porque é que uma abordagem exclusivamente alimentar pode não ser suficiente para controlar a SII. A alimentação é importante, mas não atua isoladamente. Para regular este sistema, é necessário atuar em várias frentes, em especial na gestão das emoções e que por vezes requere acompanhamento profissional.
Em resumo, a relação entre emoções e intestino é mediada por sistemas biológicos concretos, sendo o eixo HPA um dos principais. O stress não “fica na sua cabeça” e tem efeitos reais no corpo, especialmente no sistema digestivo. Por outro lado, o estado do intestino também influencia o humor e a resposta emocional.
Referências
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